sexta-feira, 12 de junho de 2015

Pétalas

Caminhava cabisbaixa e fraca procurando comida e água, numa busca eterna enquanto vivesse. Suas pernas se moviam lentamente em meio aos destroços, quando farejou um cheiro no mínimo familiar. Moveu-se mais rapidamente em direção ao odor, até encontrar o outro.

Ambos eram quadrúpedes, no entanto, ele ainda preservava um incrível brilho negro no seu pêlo, lembrando-a do passado que não viveu – antes, algo muito antes. Não precisaram de palavras para se entender, pois elas morreram junto com os destroçadores do mundo. Agora, havia um mundo mergulhado no silêncio. Mas não se confunda, não falo do silêncio mudo, apático e doentio que virou consenso – falo do silêncio ancestral: daquele vento que faz as folhas mortas cantar, o som que o andar dos poucos seres vivos daqueles dias e destes fazem em harmonia. Eles apenas sentiram o cheiro um do outro, isto já era o suficiente para se entenderem.

Entretanto, ela fez algo mais: olhou em seus olhos, o encarou. Pôde ver o universo único que se desmanchava no profundo olhar e, ainda assim, se encontrou dentro dele – sabia que ambos eram únicos, mas iguais – mesmo sem palavras para dizer. Chegou seu focinho mais perto do dele, mas ele era impassível: apenas a observava com as orelhas levantadas, imóvel e frio.

Uma pena, pensou, na sua mudez. Continuou a caminhar, devagar, não sabendo o que deveria encontrar. Apenas sabia que não encontraria muito mais do que via: destroços. Restos de vidas que se destruíram e destruíram tudo em volta. Mas continuou, suas patas marcavam o caminho árido que seguia, andou até onde seu corpo magro permitiu.

Então, deitou para descansar. Sabia, de alguma forma, que estava perdendo sua unidade. Aos poucos perdia o direito de ser para existir como um todo. Talvez sua pouca carne servisse como alimentos para outros, ou talvez fertilizasse o solo: poderia tornar-se uma rosa. Deixaria de ser ela, aquela mísera unidade – se é que esta palavra num mundo sem palavras faça sentido –, para ser englobada pelo todo. Seria tudo novamente. E sim, também seria uma rosa.

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