Is but a dream within a dream?"
Edgar Allan Poe
Apenas com letras imaginárias posso escrever este relato,
pois em que realidade ele estaria se fosse escrito à caneta? – ou sangue? – Eu
o perderia como me perdi. Devido a isto, minha história não irá passar de um
pensamento melancólico vagante. Vagando por onde? Eu me pergunto – não sei. Mas
chega de devaneios, vamos à narrativa.
Desde pequeno pude ter sonhos conscientes – podia saber que
estava sonhando! –, mas me fugia à razão o porquê, e pouco me importava. Na
verdade, apenas procurava o prazer de moldar uma realidade só minha. Uma
criança com seu próprio parque de diversões. Nesta idade os sonhos eram curtos
e nem sempre podia identificá-los. No entanto, com um pouco de prática e
perseverança, fui adentrando cada vez mais no Sonhar.
Enquanto todos se ajoelhavam ao lado da cama e juntavam suas
mãos para rezar um Pai Nosso, eu repetia a minha oração: ”Irei dormir, tudo o
que acontecer até acordar será apenas ilusão”. Repetia e repetia e repetia, até
me sentir cansado para enfim me deitar. Nesta época já chegava a minha
juventude, descobri muito mais do que poderia imaginar com minhas pesquisas.
Com algumas técnicas, diários e frases feitas fui mais longe. Descobri que os
sonhos lúcidos eram comuns com as crianças, mas elas perdiam a habilidade com o
amadurecimento, o que não aconteceu comigo. Do contrário, a cada noite me
tornava mais consciente, mais poderoso no meu próprio mundo.
Imagine com um simples passo poder sentir as areias
avermelhadas de Marte; ouvir uma lição de um mestre Shaolin; arrancar árvores
do solo com apenas as próprias mãos; freqüentar um baile de máscaras em
castelos medievais; ser mais do que matéria! E no seguinte passo estar na
esquina da rua para depois voltar a minha cama com um simples movimento das
pálpebras – me tornava o próprio Morpheus!
Contudo, há sempre um preço para ir além: tornei-me recluso.
Poucos me viam fora do quarto, cheguei a dormir dias inteiros só para poder
experimentar e arriscar um pouco mais nos meus sonhos – beirava os limites da
consciência. Como sobrevivia? Ora, te pergunto como um sonho se sustenta! Já
fui criatura, mas criei meu próprio buraco negro dentro de mim e fui arrastado
a cada dia – sugado – para mais fundo, abri mão da matéria para virar sonho. E
continuei aí.
Pude criar sonhos dentro de sonhos e outros dentro destes,
me perdi em espirais de ilusões num mundo sem fim. Foi lá que encontrei a
felicidade, encontrei pessoas que me entendiam e me aceitavam... Mas... Ah! –
Mas por quê? Nem todo o ser nos escuta, afinal. Me enganei pensando ser um
deus, pois deus mesmo o Inconsciente já era.
Não importa o quão fundo eu mergulhei – em cada próton,
nêutron ou elétron que me afundei – ele sempre estava lá, imperioso a me
vigiar. Era quase uma sombra, se esgueirava pelas bordas dos olhos, tentando me
enlouquecer... Ele queria meu fim! E fim era o que eu queria lhe dar.
Pois bem, sabe qual era o truque favorito dele? Contestar
minha soberania – sim, sim, ele fazia isso. Eu disse àquela velha, ela não
entendeu; eu repeti, ela não compreendeu; como? Era o meu reino, se quisesse
ser ouvido, a camada mais baixa do Sonhar me ouviria. Como, eu torno a
perguntar... Só Ele poderia fazer isso... Ah, foi longe de mais e descuidado de
mais. Estando personificado, poderia atingi-lo. Na verdade, quando percebi, já
tinha cortado metade do seu pescoço, seu sangue jorrava da jugular – era um
chafariz a inundar o meu mundo. Era a minha purificação e liberdade.
Haha, liberdade! Como fui ingênuo! No início, o líquido
vermelho apenas tingiu a borda do meu mundo, era apenas uma infiltração numa
parede branca qualquer. Que foi crescendo, gradualmente, ano após ano, mês após
mês, semana após semana, dia, hora, minuto. Ele estava conseguindo o que
queria: estava me enlouquecendo. Subi o máximo que pude em direção à realidade,
mas a borra vermelha me encontrava em qualquer lugar, qualquer lugar.
Não consigo abrir minhas pálpebras vezes o suficiente, tudo
o que vejo e sinto não é nada mais do que um sonho dentro de um sonho? Estou
aqui, aqui mesmo, agachado num canto desta sala com móveis coloniais de acaju,
não sei pra onde ir, pra onde se esconder. Ele está se agarrando a minha pele –
como queima! –, destruindo minha essência e, admito, vencendo!
– O atestado de óbito declarou morte encefálica após um
longo período de coma.

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