Enquanto os outros caminhavam pelos ares, havia um que
andava pesarosamente. Este sentia seus pés presos a terra e um enorme peso para
carregar nas costas. Ao mesmo tempo em que todos voavam e brincavam e se
divertiam, ele caminhava pela ilha. Ao passo que ele era irritantemente
ofendido por sua inabilidade, ficava mais e mais incomodado com o seu fardo.
Ninguém o disse como voar, pois todos achavam que era algo
tão simples que não precisaria de um manual, “pule de algum lugar alto e apenas
voe” era o que diziam, como se fosse fácil. Mas ele tinha medo do seu peso,
achava que despencaria e se despedaçaria quando chegasse ao solo. Então, o
tempo passou e não voou, nunca voou.
No entanto, a irritação continuou. Ele odiava os outros,
odiava a si mesmo, odiava a carga que o prendia e não podia ver. Foi neste
momento que decidiu seu destino: procurou pelas rochas mais afiadas, iria
retirar aquilo que o impedia de ser livre. Se jogou contra o rochedo que mais
lhe pareceu cortante, se jogou de novo e de novo. Até sentir o sangue da sua
libertação jorrando de suas costas, arrancou o volume das costas e se viu entre
dezenas de penas brancas manchadas de sangue. Logo percebeu o que havia feito.
Lágrimas se misturaram com o sangue e as penas quando entendeu que o seu fardo
era, na verdade, asas inocentes. Soube que nunca voaria.
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