sábado, 18 de abril de 2015

Dádiva

Enquanto os outros caminhavam pelos ares, havia um que andava pesarosamente. Este sentia seus pés presos a terra e um enorme peso para carregar nas costas. Ao mesmo tempo em que todos voavam e brincavam e se divertiam, ele caminhava pela ilha. Ao passo que ele era irritantemente ofendido por sua inabilidade, ficava mais e mais incomodado com o seu fardo.

Ninguém o disse como voar, pois todos achavam que era algo tão simples que não precisaria de um manual, “pule de algum lugar alto e apenas voe” era o que diziam, como se fosse fácil. Mas ele tinha medo do seu peso, achava que despencaria e se despedaçaria quando chegasse ao solo. Então, o tempo passou e não voou, nunca voou.

No entanto, a irritação continuou. Ele odiava os outros, odiava a si mesmo, odiava a carga que o prendia e não podia ver. Foi neste momento que decidiu seu destino: procurou pelas rochas mais afiadas, iria retirar aquilo que o impedia de ser livre. Se jogou contra o rochedo que mais lhe pareceu cortante, se jogou de novo e de novo. Até sentir o sangue da sua libertação jorrando de suas costas, arrancou o volume das costas e se viu entre dezenas de penas brancas manchadas de sangue. Logo percebeu o que havia feito. Lágrimas se misturaram com o sangue e as penas quando entendeu que o seu fardo era, na verdade, asas inocentes. Soube que nunca voaria.

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