sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Legião

Estava escurecendo e eu precisava de um abrigo. Parecia não haver nenhum deles ali, mas eu devia tomar cuidado. A cidade estava em ruínas, como todas as outras que eu encontrei nos últimos meses, casas desmoronadas, prédios a ponto de cair, uma poeira desértica que o vento fazia dançar e entrar nos meus pulmões. Mas não havia corpos... Sobreviventes? Perdi minhas esperanças há três meses. Contudo, precisava sobreviver, precisava de um esconderijo.

Andei por alguns quarteirões procurando um estabelecimento que não estivesse destruído. Fui margeando a cidade, pois nunca é bom ir direto ao centro, digo por experiência própria. Mas foi inevitável. Quando lá cheguei, encontrei uma praça desolada, bancos quebrados, um chafariz desativado e uma água lúgubre no lago artificial. Olhei em volta e avistei um prédio de tamanho considerável. Se fosse historiador, diria que era da época vitoriana, mas o importante era que estava em bom estado. Mesmo que aquelas estátuas quebradas em volta dele me dessem certo arrepio.
Cheguei mais perto, subi alguns degraus até chegar à construção e tentei abrir aquela grande porta dupla de madeira. Estava emperrada. Usei de mais força e abri uma fresta. Meus olhos não acreditaram no que viram: lá estavam eles reunidos quase em fileiras, de costas para mim e entoando palavras incompreensíveis enquanto faziam gestos com as mãos. Abri mais a porta, mas fracassei em ser silencioso. A porta fez um rangido estarrecedor e eles olharam para mim. Seus olhos opacos e leitosos nada enxergavam, suas peles pegajosas e podres nada sentiam, seus cérebros não pensavam em nada que beirasse o lógico. Mas lá estavam eles a me observar.
Comecei a pronunciar aqueles dizeres ilógicos igual a eles, antes que avançassem em mim. Parecia funcionar, pois eles se voltaram de costas para mim novamente. Todos olhando para uma mesma direção: aquele altar vazio. Duvido que eles mesmos saibam o que diziam ou faziam. Mas por causa deles o mundo foi jogado à demência e ao caos. Parei de falar e olhei a minha volta, havia cerca de vinte deles, o ambiente era úmido e com um cheiro de putrefação quase insuportável. Observei mais alguns segundos, mas não existia nada para mim naquele local.

Fui embora antes que eles me levassem à sua insanidade.

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