E lá estava eu sentado à mesa, vestido com um terno, naquela
sala com vidraças para o público. Este, que me observava com o mais espantoso
nível de sagacidade, detinha para si a pluralidade de idade, cor, sexo, opinião
e moral. Aos seus olhos nenhum movimento meu passava despercebido, por isso, eu
devia cumprir a minha tarefa com a mais alta habilidade e desenvoltura. Antes
que me impedissem de atuar.
Ao lado de fora havia um painel com um grande botão
vermelho. Caso meu trabalho fosse insatisfatório, bastava alguém se manifestar e apertar o botão. Com isso,
eu levaria um choque um pouco mais do que desconfortável e um pouco menos do
que mortal. E, apertado várias vezes, eu seria retirado do meu cargo e poderiam
colocar alguém melhor do que eu.
Com toda a modéstia, estava ali há muito tempo e devo
admitir que eu era bom no que fazia. Admito, também, que já haviam apertado o
botão algumas vezes, em todas elas eu dava um pulo e voltava o mais rápido
possível a fingir que estava trabalhando, digo, trabalhar, voltava a trabalhar.
No entanto, existem diversas pessoas na mesma situação que
eu, a maioria homens, é claro. Todos vivendo em seus escritórios transparentes
a mercê do povo e de sua arbitrária concessão. Eles dizem o que acham que é
melhor para eles e nós simulamos que damos ouvidos, enquanto fazemos algo realmente
necessário, como comprar um carro novo – afinal, o meu já tem seis meses de
uso!
Coitados, o detalhe mais importante eles deixavam escapar: o
botão, na verdade, era falso. E nós, engravatados, é que governávamos.
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