– Me disseram que você tem uma noção um pouco diferente da
realidade... Estou certo? – Disse o psicanalista para o seu mais novo paciente.
– Na verdade, eu sei mais do que a “realidade”. – Respondeu
o dito louco, impossibilitado de gesticular com as mãos por causa da camisa de
força. Ao invés disso, olhou para a janela gradeada do que chamavam de
“quarto”, porém ele preferia definir como uma prisão. – Você não consegue ver
porque o Criador não te deixa enxergar através da cortina.
– Muito bem, você me parece o tipo religioso, conte-me mais
sobre este deus. – No ambiente que estavam só havia as duas cadeiras de ferro,
nas quais estavam sentados, uma cama, para o paciente, e a janela. Realmente:
uma prisão.
– Não é um deus, se não eu estaria morto por saber a
verdade... – Ele teve um tique, virou a cabeça de lado e falou com uma voz
aguda e alfinetada: Espera, espera! Talvez Ele queira que eu saiba. – Teve
outro tique, falou com mais raiva: – Não seja idiota! Ele só está brincando!
Nos deixando loucos...
– Fique calmo – disse o doutor, percebia que o paciente
tinha uma doença já avançada, mas faltava defini-la melhor. – Seja mais claro,
por favor.
– Ora, essa! Você escutou? Ele quer calmaria. – Outro tique
com a cabeça e ele olhou de forma abobalhada para o ar: – Sim, ele quer. Mas o
que Ele quer? Eis a questão, sir Shakespeare.
– Não entendo. O que está tentando me dizer? – disse o
psicólogo, confuso.
– Sim, você não entende, porque ele não quer que você entenda.
Contudo, devemos te explicar? Não gostaria de ter minha saliva transformada em
larvas quando abrisse minha boca para contar. – Outro tique: – Nem eu.
– Eu lhe garanto que nada irá acontecer. Estamos a sós,
ninguém vai fazer nada contra você.
– A sós? – O paciente olhou novamente para a janela. O dia
estava claro, ele não conseguia divisar nenhuma forma lá fora, não se importou:
sabia que não havia nada lá. Voltou a olhar para o doutor. – Nunca estaremos a
sós. Ele está em todo o lugar, ele é todo o lugar, ele é quem cria, ele é quem
escreve.
– Esta dizendo que o senhor acredita em um ser onipotente? –
Tentou o doutor, mais uma vez.
– Não é questão de acreditar, não, não é. Hahaha, não é não.
A questão é saber que somos apenas seus personagens, meros fantoches de seu
teatro.
– Se está tão certo, prove.
– Muito bem, doutor. Provarei, se Ele deixar. Porém, tente
não sucumbir com a dor. Pois a mentira é doce e saborosa, enquanto a verdade é
fria como as flores. – Seguiu-se um momento de silêncio, o paciente fechou os
olhos e voltou a abri-los com uma pergunta entre os dentes podres: – Você tem
esposa, filhos, uma história?
– Ora, é claro, eu tenho... – o psicanalista sabia que tinha
alguém lhe esperando em casa quando voltasse, mas quem? Em que casa? Como sabia
que tinha alguém? E se não tivesse ninguém? Como sabia? Não sabia. Ficou
paralisado, pensando na sua vida. Qual vida? Não conseguia lembrar-se de nada
além daquela sala, da cama, das cadeiras e da janela. Não lembrava nem como
havia entrado naquele quarto sem portas. Espera, não lembrava ou não sabia?
– Realmente – disse o paciente –, uma questão
shakespeariana.
– Não entendo, como...
– Apenas olhe pela janela – cortou-lhe a fala, com desprezo.
O homem correu para a janela e não havia nada através dela. Só
entendeu no último parágrafo... Pois assim eu quis.
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