A ideia do suicídio sempre circunda a mente dos mais fracos.
Talvez este seja o motivo de que, quando acontece, não sai nos noticiários. Não
importa. A ideia está sempre lá, inocente, esperando ser encontrada por acaso.
“Pode ser um pai de família. Tem um trabalho honesto, três
filhos para alimentar e uma linda esposa que cuida dos afazeres domésticos.
Sabe, olhando dessa forma até parece besteira o cara ter matado a própria
família e tal, mas te convido para ter outra visão: catorze horas de trabalho
para ganhar uma mixaria, três crias ingratas e não planejadas e uma mulher que
não te da o devido valor. Ruim? Sim. Motivo o suficiente? Quase. O que faltava
era apenas o velho clichê: chegar mais cedo em casa e ver a esposa com dois
homens no seu ninho de amor. A vadia gritava tão alto que nem percebeu o marido
chegar, também não percebeu quando ele os viu, menos ainda quando foi na
cozinha buscar uma faca. Uma senhora faca, eu diria. Quem pode culpá-lo? Quanto
às crianças, apenas não queria que elas sofressem sozinhas neste mundo ingrato.
Um pai deve cuidar de seus filhos, não é? Sete mortes, zero noticias.
Também pode ser uma jovem com um futuro brilhante pela
frente. Mas é algo engraçado, este Destino sempre trama para que as melhores
pessoas encontrem as piores. Você sabia que existe uma expressão na internet
para vídeos pornôs não autorizados? Chama-se “caiu na net”. Pois é, o namorado
ingrato não gostou do termino do namoro. Agora, diga-me, quem é o culpado? A
garota que permitiu os vídeos amorosos ou o garoto que quis se vingar? Difícil
dizer, afinal, não se pode julgar duas pessoas por meia história. Lá se vai uma
futura médica. Contudo, não precisa se preocupar. Existem formas indolores de fazê-lo, por exemplo, remédios. Na dose
certa, eles podem te salvar do sofrimento inútil. Uma morte, muita repercussão
no Facebook.”
– Quer outro exemplo? – perguntei.
– Não sei. Ainda não tenho certeza.
– Ora, não precisa ter medo. Eu estou aqui para te ajudar,
para te salvar. – Disse ao garoto. O coitado era um derrotado. Há um mês a
família esperava que ele ingressasse na faculdade, não passou. Há um mês ele
tinha uma namorada que vivia dizendo que eles iriam se casar, descobriu que ela
transava com seu melhor amigo a mais tempo do que com ele (na verdade, não
queria nem pensar o que teria feito a boca dela ter um gosto estranho em
algumas vezes que se encontravam, haha!). Há um mês ele tinha sonhos, agora só
tem a vergonha de viver. – Não pode voltar atrás.
– Você tem certeza que a corda não machucará muito a minha garganta,
que não vou sofrer muito?
– Mais do que já sofreu? Duvido. – Todos eles têm essa dificuldade
no último passo, por isso que faça o que faço. Afinal, um homem não conseguiria
esfaquear outros dois estando sozinho, não é? Nem uma garotinha inocente saberia
o remédio certo.
Amarrei a corda no galho da árvore. Estava uma bela noite
para morrer, cheia de estrelas e uma lua quase cheia. Fiz o nó necessário para
o pescoço cansado de segurar uma cabeça tão desprovida de sentido. Coloquei a
cadeira logo abaixo e pedi para que subisse.
– Eu deveria dizer umas últimas palavras? – disse o menino, após subir na cadeira e colocar a corda em volta do pescoço.
– Hum... Você não precisa desta besteira hollywoodiana.
– E chutei a cadeira...
Mais uma morte, mais uma salvação deste mundo cruel.
Sabe, não faço isso pelo dinheiro – embora precise dele ocasionalmente – nem pelo sexo desesperado que às vezes acontece. Faço apenas
pelos que precisam. Um dia eu caí e não tive coragem de proclamar a sentença,
foi neste momento que percebi: outros deveriam estar na mesma situação que a
minha, preciso ajudá-los. Por que viver quando nada mais faz sentido? Quando a
vida te mata, mate-a e junte-se à Mãe acolhedora. O medo não é necessário,
estarei sempre aqui para ajudá-los, mesmo que seja apenas uma voz.
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