quinta-feira, 14 de maio de 2015

A ideia

A ideia do suicídio sempre circunda a mente dos mais fracos. Talvez este seja o motivo de que, quando acontece, não sai nos noticiários. Não importa. A ideia está sempre lá, inocente, esperando ser encontrada por acaso.


“Pode ser um pai de família. Tem um trabalho honesto, três filhos para alimentar e uma linda esposa que cuida dos afazeres domésticos. Sabe, olhando dessa forma até parece besteira o cara ter matado a própria família e tal, mas te convido para ter outra visão: catorze horas de trabalho para ganhar uma mixaria, três crias ingratas e não planejadas e uma mulher que não te da o devido valor. Ruim? Sim. Motivo o suficiente? Quase. O que faltava era apenas o velho clichê: chegar mais cedo em casa e ver a esposa com dois homens no seu ninho de amor. A vadia gritava tão alto que nem percebeu o marido chegar, também não percebeu quando ele os viu, menos ainda quando foi na cozinha buscar uma faca. Uma senhora faca, eu diria. Quem pode culpá-lo? Quanto às crianças, apenas não queria que elas sofressem sozinhas neste mundo ingrato. Um pai deve cuidar de seus filhos, não é? Sete mortes, zero noticias.

Também pode ser uma jovem com um futuro brilhante pela frente. Mas é algo engraçado, este Destino sempre trama para que as melhores pessoas encontrem as piores. Você sabia que existe uma expressão na internet para vídeos pornôs não autorizados? Chama-se “caiu na net”. Pois é, o namorado ingrato não gostou do termino do namoro. Agora, diga-me, quem é o culpado? A garota que permitiu os vídeos amorosos ou o garoto que quis se vingar? Difícil dizer, afinal, não se pode julgar duas pessoas por meia história. Lá se vai uma futura médica. Contudo, não precisa se preocupar. Existem formas indolores de fazê-lo, por exemplo, remédios. Na dose certa, eles podem te salvar do sofrimento inútil. Uma morte, muita repercussão no Facebook.”

– Quer outro exemplo? – perguntei.

– Não sei. Ainda não tenho certeza.

– Ora, não precisa ter medo. Eu estou aqui para te ajudar, para te salvar. – Disse ao garoto. O coitado era um derrotado. Há um mês a família esperava que ele ingressasse na faculdade, não passou. Há um mês ele tinha uma namorada que vivia dizendo que eles iriam se casar, descobriu que ela transava com seu melhor amigo a mais tempo do que com ele (na verdade, não queria nem pensar o que teria feito a boca dela ter um gosto estranho em algumas vezes que se encontravam, haha!). Há um mês ele tinha sonhos, agora só tem a vergonha de viver. – Não pode voltar atrás.

– Você tem certeza que a corda não machucará muito a minha garganta, que não vou sofrer muito?

– Mais do que já sofreu? Duvido. – Todos eles têm essa dificuldade no último passo, por isso que faça o que faço. Afinal, um homem não conseguiria esfaquear outros dois estando sozinho, não é? Nem uma garotinha inocente saberia o remédio certo.

Amarrei a corda no galho da árvore. Estava uma bela noite para morrer, cheia de estrelas e uma lua quase cheia. Fiz o nó necessário para o pescoço cansado de segurar uma cabeça tão desprovida de sentido. Coloquei a cadeira logo abaixo e pedi para que subisse.

– Eu deveria dizer umas últimas palavras? – disse o menino, após subir na cadeira e colocar a corda em volta do pescoço.

– Hum... Você não precisa desta besteira hollywoodiana. – E chutei a cadeira...

Mais uma morte, mais uma salvação deste mundo cruel.

Sabe, não faço isso pelo dinheiro – embora precise dele ocasionalmente – nem pelo sexo desesperado que às vezes acontece. Faço apenas pelos que precisam. Um dia eu caí e não tive coragem de proclamar a sentença, foi neste momento que percebi: outros deveriam estar na mesma situação que a minha, preciso ajudá-los. Por que viver quando nada mais faz sentido? Quando a vida te mata, mate-a e junte-se à Mãe acolhedora. O medo não é necessário, estarei sempre aqui para ajudá-los, mesmo que seja apenas uma voz.

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