quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Prisioneira da Caverna

Sentia o ar úmido e lúgubre que entrava em seus pulmões. Assistia as sombras contarem estórias naquela tão familiar parede. Mas não via como há uma hora ou como ontem, não via igual viu sua vida inteira. Observava o teatro com desinteresse, tédio.
Exceto pela fogueira, o ambiente era escuro e ela não podia enxergar além das cotidianas sombras. Estas se diziam suas amigas, brincavam e, por muito tempo, colocaram um sorriso tonto no rosto da garota. Porém, não mais.

Ela tentou se levantar, mas as pernas eram fracas. Seu único alimento era a ilusão, renegando esta, não tinha forças nem para se levantar, quem dirá andar. No entanto, levantou e andou. Tropeçou, se escorou na parede fria e continuou.
As afáveis sombras pediram para que parasse, não precisava fazer tal esforço. “Não quer uma História nova, minha cara?” repetiam, mas a menina as ignorava enquanto procurava uma saída para sua prisão. Os amáveis pedidos se transformavam aos poucos em acusações de loucura e insensatez. Contudo, ela avistou uma luz branca ao longe e nada mais ouvia.
Caminhava até o fim de seu cárcere com tanta avidez quanto às trevas ameaçavam. “Não te fará bem”, “é suicídio, sua tola”, “não nos deixe a sós”. Ao fim, saltou em meio à luz que a cegou. As vozes se calaram.

Sentiu o calor solar queimar-lhe a pele, o cântico dos pássaros, o cheiro das gardênias e dos girassóis e dos lírios. Abriu os olhos e contemplou o jardim que havia em sua frente. Caiu de joelhos, estava frágil sem as fábulas, percebeu como seria difícil se sustentar em um lugar onde nada menos que a perfeição imperava. Deitou na grama, olhou as nuvens e pensou: “não importa, fugi dos meus algozes, fugi da Caverna”.

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