terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Invalidez

Uma estante velha e empoeirada, cheia de livros velhos de páginas amareladas com uma escrita ilegível. Fazia anos que ninguém roubava-lhe algum livro, nem que fosse por minutos. Idoclides sentia-se igual sua estante, sua não, a estante que ficava no seu quarto. O qual, por acaso do destino – e de seus netos – ficava num asilo. Por alguns meses se perguntou o propósito daquele móvel no lado oposto ao da sua cama – isto depois, é claro, dos longos anos que se perguntou onde sua família estaria e porque a abandonara – mas acabou largando este e outros pensamentos. Afinal, como descobrir se a única parte móvel do seu corpo eram os fracos olhos? Não, ela preferia deixar estes pensamentos serem levados pela maré do esquecimento.


Para ser sincera consigo mesma, pouco lhe importava agora. Até mesmo o constrangimento de ter sua frauda geriátrica trocada por estranhos já não lhe importava mais, “que limpassem sua merda!”. Os dias se passavam, pior, não passavam, se arrastavam e rolavam pelo tédio. Ela, a cama, a estante e uma janela. Na qual via apenas borrões azuis e brancos.

Se pudesse lembrar, talvez aproveitasse os seus poucos dias relembrando os bons dias que teve antes daquilo – antes do asilo. Porém, não lembrava. Na verdade, pouco podia lembrar. Às vezes se pegava pensando o que lhe haviam dado de almoço, não importa, não tinha mais paladar. Tudo parecia-lhe uma massa gosmenta e podre que sua gengiva tentava mastigar – mesmo sem os dentes.

Sua devoção católica não a salvou de esquecer todas as orações. E daí? Só tinha um pedido mesmo. Só queria deixar de ser quem era, abandonar sua carcaça arruinada e cair no esquecimento que adoravam nomear como descanso. Desejava isso com todas as forças que lhe restavam, mas se sentia a vítima de uma piada sem graça. Não importa o que pedisse, nada teria. Nem mesmo sua despedida.

Foi no meio de sua monotonia que ouviu gritos distantes, não sabia realmente se vinham de longe, mas eles diziam alguma palavra – “toco?”, “louco?” “fogo!”. Sentiu um fraco cheiro de queimado, quis se levantar e... Levantou-se. Ficou surpresa com essa repentina habilidade. Tentou andar, cambaleou até a janela, não conseguia distinguir nada. Cambaleou novamente, porém, agora, para a estante de livros. Pegou qualquer e folheou-o: as páginas estavam em branco, nada havia para ler. Esta novidade foi recepcionada por uma gargalhada rouca e vazia, talvez, solitária.

O incêndio foi controlado rapidamente. Dona Idoclides foi encontrada em sua cama, na mesma posição que mantinha pelos últimos treze anos. Não resistiu à inalação da fumaça e faleceu asfixiada.

Ninguém foi ao enterro.

3 comentários:

  1. Ótimo conto! Mexe com sentimentos interiores... Um dia desejei ser um livro de uma teoria qualquer, Um dia desejei liberar-me de minha condição humana e abandonar para sempre este mundo, foi no mesmo dia que descobri que era apenas um jovem com um livro de folhas vazias a serem escritas... Nossos limites não podem ser subestimados e nossa força não deve ser guardada, a cada dia que passa a solidão se torna alimento da mudança (ou deveria ser).

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    1. A única coisa que desejo é não viver numa cama pelos restos dos meus dias. Que os anjos me levem pelas mãos, ou que eu morra por um caminhão. Não quero ficar aonde não posso mudar mais nada.

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  2. Bem, o que posso dizer é que devemos aproveitar de forma equilibrada cada segundinho desta vida .

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