domingo, 7 de dezembro de 2014

Vida de papel

Um homem de meia idade sentou-se à mesa, colocou uma folha de papel na sua frente e pegou o lápis. Começou a escrever: um jovem estava à frente de seu computador tentando escrever seu conto, mas não conseguia. Pois o personagem que queria narrar parecia-lhe uma incógnita, de pensamentos turvos e uma ideologia desconhecida.

Foi então que o garoto teve uma ideia, abriu um documento do Word e escreveu uma pergunta:

– Quem é você?


Por algum tempo, não houve resposta. Porém, o protagonista tomou conta das mãos de seu escritor e respondeu:

– Sou mais do que suas palavras podem descrever. Mais do que os adjetivos podem contar...

Surpreendido, o jovem pensou até ter uma resposta à altura. Então, o dueto começou:

– Se minhas palavras não são o suficiente, conte-se pelas suas. Ou será que desconhece a si próprio?

– Conheço-me tão bem como uma águia conhece sua presa. Mas o problema não está em mim. É você que não consegue ler as sílabas que sussurro em seus ouvidos.  Como posso dialogar com um surdo?

– Que seja – o escritor percebeu que não conseguiria nada por este caminhou, decidiu seguir por outro: – me diga, então, quais são seus feitos?

– Sou um guerreiro de manto negro. Muitos já estiveram na ponta da minha arma, mas eles pouco me importavam. Na verdade, raras foram as vezes que duelei com alguém que merecesse ter seu nome pronunciado. Apenas sigo pelos caminhos que estão na minha frente, me levando a qualquer lugar.

– E por onde estes caminhos já te levaram?

– Já me levaram para diversos mundos. Estive com mendigos sábios, com sobreviventes do fim de seu mundo, com mulheres de olhos azuis que me fariam desistir dessa luta constante, e estas foram as mais difíceis batalhas. Mas continuei. Até aqui.

– E quando encontrar alguém que está a sua altura, o que fará?

– Lutarei. Absorverei tudo o que ele pode me dar. E, por fim, perguntarei seu nome.

– Mas por que tanta importância com o nome?

– É obvio que somos muito mais do que palavras. Porém, uma pessoa sem nome é um ser sem rosto.

– Então me diga – pronunciou pelas teclas o escritor, impaciente – qual o seu nome, guerreiro?

– Não está escutando? Estou sussurrando em seus ouvidos. Por que não se cala e me escuta?

O jovem parou. Sabia que continuar a discussão não iria levá-lo a lugar algum.

Calou-se.

E naquele mar de silêncio se afogou, até encontrar o que queria. Um nome: Beliel.

O homem de meia idade releu o que acabara de escrever. Corrigiu alguns erros de ortografia. Repousou o lápis sobre a mesa. Dobrou a folha até formar um avião de papel. Aproximou-se de sua janela e atirou o avião, esperando que este encontrasse seu lugar no universo.

Um comentário:

  1. Quantas aventuras já não vivenciaram os nossos personagens?
    Quantas histórias e sonhos vividos por eles já não representaram os nossos anseios?
    Está ai o grande mistério de escrever
    A vontade de querer estar no mundo
    A fuga da covardia a ser evitada!

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