Um homem de meia idade sentou-se à mesa, colocou uma folha
de papel na sua frente e pegou o lápis. Começou a escrever: um jovem estava à
frente de seu computador tentando escrever seu conto, mas não conseguia. Pois o
personagem que queria narrar parecia-lhe uma incógnita, de pensamentos turvos e
uma ideologia desconhecida.
Foi então que o garoto teve uma ideia, abriu um documento do
Word e escreveu uma pergunta:
– Quem é você?
Por algum tempo, não houve resposta. Porém, o protagonista
tomou conta das mãos de seu escritor e respondeu:
– Sou mais do que suas palavras podem descrever. Mais do que
os adjetivos podem contar...
Surpreendido, o jovem pensou até ter uma resposta à altura.
Então, o dueto começou:
– Se minhas palavras não são o suficiente, conte-se pelas
suas. Ou será que desconhece a si próprio?
– Conheço-me tão bem como uma águia conhece sua presa. Mas o
problema não está em mim. É você que não consegue ler as sílabas que sussurro
em seus ouvidos. Como posso dialogar com
um surdo?
– Que seja – o escritor percebeu que não conseguiria nada
por este caminhou, decidiu seguir por outro: – me diga, então, quais são seus
feitos?
– Sou um guerreiro de manto negro. Muitos já estiveram na
ponta da minha arma, mas eles pouco me importavam. Na verdade, raras foram as
vezes que duelei com alguém que merecesse ter seu nome pronunciado. Apenas sigo
pelos caminhos que estão na minha frente, me levando a qualquer lugar.
– E por onde estes caminhos já te levaram?
– Já me levaram para diversos mundos. Estive com mendigos
sábios, com sobreviventes do fim de seu mundo, com mulheres de olhos azuis que
me fariam desistir dessa luta constante, e estas foram as mais difíceis
batalhas. Mas continuei. Até aqui.
– E quando encontrar alguém que está a sua altura, o que
fará?
– Lutarei. Absorverei tudo o que ele pode me dar. E, por
fim, perguntarei seu nome.
– Mas por que tanta importância com o nome?
– É obvio que somos muito mais do que palavras. Porém, uma
pessoa sem nome é um ser sem rosto.
– Então me diga – pronunciou pelas teclas o escritor,
impaciente – qual o seu nome, guerreiro?
– Não está escutando? Estou sussurrando em seus ouvidos. Por
que não se cala e me escuta?
O jovem parou. Sabia que continuar a discussão não iria
levá-lo a lugar algum.
Calou-se.
E naquele mar de silêncio se afogou, até encontrar o que
queria. Um nome: Beliel.
O homem de meia idade releu o que acabara de escrever.
Corrigiu alguns erros de ortografia. Repousou o lápis sobre a mesa. Dobrou a
folha até formar um avião de papel. Aproximou-se de sua janela e atirou o
avião, esperando que este encontrasse seu lugar no universo.

Quantas aventuras já não vivenciaram os nossos personagens?
ResponderExcluirQuantas histórias e sonhos vividos por eles já não representaram os nossos anseios?
Está ai o grande mistério de escrever
A vontade de querer estar no mundo
A fuga da covardia a ser evitada!