– Então, o senhor vai-me dizer que perdeu toda a esperança?
– indagou o jovem para o homem que estava sentado no sofá. O ambiente estava em
meia luz, o anoitecer chegava. O homem olhou o garoto por alguns instantes sem
responder, depois disse vagarosamente, quase saboreando sua fala:
– Esperança... Es-pe-ran-ça... Fazia muito tempo que eu não
escutava esta palavra e há muito esqueci seu significado. Devia fazer o mesmo.
– Aquelas palavras ressoavam na sala de estar, mais ainda na cabeça do jovem.
– Vamos continuar assim? A mesmice de sempre?
– O que posso mudar estando sozinho, garoto? Ninguém se importa com
os outros, estão todos ocupados com seus próprios objetivos. O que quer que eu
faça?
– Quero que lute! – gritou. – Não podemos deixar a inércia
governar nossas atitudes. Estou cansado dessa monotonia, cansado dessa vida.
– Você ainda é novo, mas um dia irá entender. O mundo sempre
teve uma hierarquia, dessa forma vivemos desde sempre. É algo natural, isto que
nos torna humanos.
– Não, não, não! Isto nos torna bestas!
– E se assim for? – redarguiu o homem, estava perdendo a
paciência. – Do que importa? Não podemos mudar nada disto. Já estudou história
na escola, sabe que revoluções são fracassos. Elas servem apenas para
demonstrar a dura realidade: somos incapazes de mudar.
– Está cego e alienado pelo comodismo. – O garoto andou até
a janela e abriu-a. – Veja, pai: nada deve parecer impossível de mudar!
Logo abaixo da janela havia uma rua inundada por uma
multidão descontente. Pessoas como todas as outras, cada um com sua vida, seus
objetivos. Porém, ali. Para apenas gritar o que há muito ficou entalado na
garganta. Apenas para mostrar que eram movidas por muito mais que a inércia.
Eram movidos por sua esperança.

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