segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A última

– Então, o senhor vai-me dizer que perdeu toda a esperança? – indagou o jovem para o homem que estava sentado no sofá. O ambiente estava em meia luz, o anoitecer chegava. O homem olhou o garoto por alguns instantes sem responder, depois disse vagarosamente, quase saboreando sua fala:
– Esperança... Es-pe-ran-ça... Fazia muito tempo que eu não escutava esta palavra e há muito esqueci seu significado. Devia fazer o mesmo. – Aquelas palavras ressoavam na sala de estar, mais ainda na cabeça do jovem.

– Vamos continuar assim? A mesmice de sempre?
– O que posso mudar estando sozinho, garoto? Ninguém se importa com os outros, estão todos ocupados com seus próprios objetivos. O que quer que eu faça?
– Quero que lute! – gritou. – Não podemos deixar a inércia governar nossas atitudes. Estou cansado dessa monotonia, cansado dessa vida.
– Você ainda é novo, mas um dia irá entender. O mundo sempre teve uma hierarquia, dessa forma vivemos desde sempre. É algo natural, isto que nos torna humanos.
– Não, não, não! Isto nos torna bestas!
– E se assim for? – redarguiu o homem, estava perdendo a paciência. – Do que importa? Não podemos mudar nada disto. Já estudou história na escola, sabe que revoluções são fracassos. Elas servem apenas para demonstrar a dura realidade: somos incapazes de mudar.
– Está cego e alienado pelo comodismo. – O garoto andou até a janela e abriu-a. – Veja, pai: nada deve parecer impossível de mudar!
Logo abaixo da janela havia uma rua inundada por uma multidão descontente. Pessoas como todas as outras, cada um com sua vida, seus objetivos. Porém, ali. Para apenas gritar o que há muito ficou entalado na garganta. Apenas para mostrar que eram movidas por muito mais que a inércia.
Eram movidos por sua esperança.

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